“O Zika me formou”: formação profissional em tempos epidêmicos
DOI:
https://doi.org/10.18310/2446-4813.2025v11n2.4695Palavras-chave:
Zika vírus, Capacitação de Recursos Humanos em Saúde, Recife, AntropologiaResumo
Introdução: Entre 2015 e 2016, o Brasil vivenciou uma epidemia do vírus Zika, com consequências reprodutivas preocupantes, declaração de emergência sanitária nacional e internacional e, dada a novidade etiológica, intensificação do esforço científico. Em Pernambuco, segundo estado brasileiro mais afetado, professores, pesquisadores e profissionais de saúde rapidamente recrutaram estudantes de graduação e pós-graduação para ganhar escala no acolhimento da população infantil e na investigação sobre o fenômeno viral. Objetivos: Descrever e entender o que há de específico na formação em saúde durante uma epidemia desconhecida. Esta formação aconteceu em consultas mais longas e frequentes, a partir de relações múltiplas e continuadas com as famílias atingidas e com as equipes de trabalho e repercutindo em ciências polifônicas e reflexivas. Métodos: Entrevistas foram realizadas em Recife/PE, entre 2018 e 2023, com 18 estudantes de Enfermagem, Fisioterapia, Medicina, Nutrição, Saúde Coletiva, Serviço Social e Terapia Ocupacional. Resultados: Naquele tempo epidêmico, quando ciência e clínica se encontraram intensamente, os interlocutores analisaram retrospectivamente como ensino-pesquisa-comunidade deixou uma marca na formação, nas escolhas profissionais e também na vida pessoal. Foi a presença de graduandos e pós-graduandos que permitiu mais atendimentos, artigos científicos, protocolos clínicos e políticas de saúde. Conclusões: A formação é um elo importante entre assistência e pesquisa. No convívio com as crianças, suas famílias, os professores e tutores nos serviços de saúde, estes estudantes tiveram a chance de rever os procedimentos convencionais da pesquisa, de conhecer os limites da infraestrutura hospitalar e se converterem em testemunhas críticas de uma epidemia.
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