Cadê a nossa fitoterapia tradicional brasileira? Uma escrevivência autoetnográfica sobre saberes tradicionais, racismo e colonialidades
DOI:
https://doi.org/10.18310/2446-4813.2025v11n2.4719Palabras clave:
Racismo, Colonialismo, Plantas medicinais, Pesquisa qualitativaResumen
Nas últimas décadas, observam-se políticas públicas e ações que visam atender à demanda crescente da população brasileira por plantas medicinais. Contudo, o alcance dos objetivos dessas políticas e a efetivação do atendimento às necessidades, no que tange aos usos e práticas de plantas medicinais, ainda se mostram distantes. Este estudo qualitativo emprega a autoetnografia, utilizando o referencial teórico da escrevivência de Conceição Evaristo, e tem como objetivo compreender o processo de invisibilização da fitoterapia tradicional brasileira. A autora principal, uma mulher negra, farmacêutica e neta de raizeira, utiliza suas memórias e experiências para refletir sobre o silenciamento e a cooptação dos saberes sobre a biodiversidade brasileira. Os resultados são apresentados narrativamente e analisados sob a ótica da teoria decolonial e do pensamento feminista negro. As análises demonstram que as políticas públicas e práticas atuais em fitoterapia, embora busquem atender à demanda por plantas medicinais, perpetuam uma lógica hierárquica que subordina os saberes tradicionais e populares aos conhecimentos técnico-científicos ocidentais. São discutidas as manifestações das colonialidades do saber, de gênero, do ser e do poder, evidenciando como o racismo e a ciência ocidental operam na desqualificação e apropriação desses conhecimentos. Com este trabalho, propõe-se um caminho para a compreensão da negação, da falta de estruturação, da defesa da fitoterapia tradicional brasileira, e para a decolonização dos saberes em saúde.
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