Linhas de insurreição: dos marcadores sociais da deficiência à governamentalidade neoliberal na atenção à saúde de pessoas com estomias

Autores

DOI:

https://doi.org/10.18310/2446-4813.2026v12n1.5040

Palavras-chave:

Ciência política, Estomaterapia, Pessoas com deficiência, Pesquisa qualitativa, Política de saúde

Resumo

Objetivo: Entrecruzar a influência dos marcadores sociais da diferença e da governamentalidade neoliberal na atenção à saúde de pessoas com estomias, ponderando linhas de ação-insurreição em pesquisas qualitativas. Método: Estudo qualitativo teórico, em formato de ensaio com notas de uma pesquisa de desenho misto, frente à coleta de dados, entre 2023 e 2024, em serviços especializados na atenção às pessoas com deficiência do tipo estomia respiratória e de eliminação, no Norte do Brasil. Resultados: Conceberam-se eixos de debate do microssocial para o macrossocial. Entrecruzou-se classe social, exclusão geoespacial e deficiência, que envolvem a criação de aberturas no corpo para respiração ou eliminação com o conceito de Insígnias da Diferença. Discorre-se sobre os confrontos com as direções da governamentalidade, subjetividades dos trabalhadores permeadas pelo receio (implícito ou não), medo do contínuo desfinanciamento, contornos biomédicos- reducionistas durante as entrevistas, quantificação como prioridade, exigências de contrapartidas da pesquisa e a priorização de uma produtividade discursiva – crise narrativa – conformando os dados a um lugar banal. Considerações finais: Defende-se a insurreição como linha de (re)ação para reportar e causar fissuras narrativas em mais pesquisas qualitativas para a contestação, tanto do neoliberalismo quanto do apagamento de marcadores.

Biografia do Autor

  • Antonio Jorge Silva Correa Júnior, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

    Doutorando em ciências pelo programa de pós-graduação em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

  • Nádia Zanon Narchi, Universidade de São Paulo

    Doutorado em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo (1999), Livre Docência em Saúde Materna e Perinatal pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (2011).

  • Edemilson Antunes de Campos, Universidade de São Paulo

    Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (2005), Pós-Doutorado junto ao Centre de Recherche Médicine, Sciences, Santé et Société (CERMES) da École des Hautes Études en Sciences Sociales (2008-2009 e 2013) e Livre-Docência pela USP, área: Sociedade, Saúde e Educação, especialidade: Ciências Sociais e Saúde.

  • Helena Megumi Sonobe, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

    Doutor (2001) em Enfermagem Fundamental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP. Atualmente é Professor Associado da Universidade de São Paulo.

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Publicado

2026-03-17

Edição

Seção

Artigos Originais

Como Citar

Correa Júnior, A. J. S., Narchi, N. Z. ., de Campos, E. A., & Sonobe, H. M. (2026). Linhas de insurreição: dos marcadores sociais da deficiência à governamentalidade neoliberal na atenção à saúde de pessoas com estomias. Saúde Em Redes, 12(1), 5040. https://doi.org/10.18310/2446-4813.2026v12n1.5040

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